O esquema de fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) é muito maior do que se imaginava até recentemente. Na quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026, a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) revelou um dado chocante: a família Camisotti movimentou valores cinco vezes superiores aos atribuídos a Antônio Carlos Camilo Antunes, o conhecido "Careca do INSS". Até então, o Careca era apontado como o principal operador financeiro do caso, mas as novas investigações mostram que ele era apenas uma peça menor em um tabuleiro muito mais complexo.
A revelação veio diretamente do relator da comissão, deputado Alfredo Gaspar, deputado federal (União-AL). Ele destacou que três entidades investigadas juntas repassaram mais de R$ 800 milhões, sendo que cerca de R$ 350 milhões chegaram diretamente a empresas ligadas aos Camisotti. Não se trata apenas de desvios pontuais, mas de uma estrutura industrializada para o roubo de aposentados e pensionistas brasileiros.
A "Gangue" e o Silêncio Estratégico
O senador Izalci Lucas, senador (PL-DF), não poupou críticas ao definir a atuação de Maurício Camisotti, pai de Paulo, como a criação de "uma grande estrutura para roubo de aposentados". Para Izalci, Maurício construiu um verdadeiro "império do crime", com seu filho, Paulo Camisotti, atuando como sócio e herdeiro fundamental nessa engrenagem.
No entanto, quando convocado para depor na mesma data, 26 de fevereiro, Paulo Camisotti, de 33 anos, permaneceu em silêncio. Amparado por um habeas corpus concedido pelo ministro Flávio Dino, ministro do Supremo Tribunal Federal, o empresário exerceu seu direito constitucional de não responder perguntas que pudessem incriminá-lo. A postura foi vista pela bancada investigadora como mais uma tática de obstrução.
Durante a sessão, Gaspar foi direto: "O senhor, seu pai e o resto da gangue tiraram milhões de reais do povo brasileiro". A acusação recai sobre Paulo, que figura como presidente ou representante de mais de 20 empresas investigadas na Operação Sem Desconto. Entre elas estão a Benfix, a Brasil Dental Serviços Compartilhados e a Rede Mais Saúde, apontadas como destinatárias finais dos recursos desviados.
O Papel da Ambec e os Parentes Chave
Um dos pontos centrais da investigação é a Ambec (Associação de Aposentados Mutualistas para Benefícios Coletivos). Segundo dados apresentados por Gaspar, a entidade retirou R$ 500 milhões das contas de aposentados e pensionistas. O detalhe que conecta a organização à família investigada é pessoal: o primeiro presidente da Ambec foi Ademir Fratic Bacic, primo de Paulo e sobrinho de Maurício Camisotti.
Essa rede familiar sugere uma operação coordenada, onde os laços de sangue facilitavam a confiança necessária para movimentar grandes volumes de dinheiro ilegalmente. Maurício Camisotti está preso desde 12 de setembro de 2025, acusado de ser um dos líderes dessa organização criminosa. Enquanto isso, sua esposa, Cecília Montalvão, também foi convocada para depor, embora tenha enfrentado obstáculos processuais semelhantes aos de seu genro.
Obstáculos Processuais e Quebra de Sigilos
A resistência à CPMI não é nova. Em 9 de fevereiro de 2026, uma sessão foi cancelada após Paulo Camisotti apresentar um atestado médico de última hora. O presidente da comissão, senador Carlos Viana, senador (Podemos-MG), criticou duramente a manobra, afirmando que a comissão não aceitará o uso de atestados médicos como instrumento para esvaziar as investigações.
Na sessão de 26 de fevereiro, a CPMI avançou em outras frentes. Foram aprovados requerimentos de quebra de sigilos bancários e fiscais de diversos investigados, incluindo Fabio Luis Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho do presidente Lula. Além disso, o colegiado decidiu recorrer à condução coercitiva para garantir o depoimento de Cecílio Galvão, advogado que não compareceu à sessão sem justificativa aceita.
O Fim da Linha: Relatório Final e Novos Depoimentos
A CPMI do INSS já realizou 32 reuniões e entra na reta final. O relatório final deve ser apresentado nas próximas semanas, consolidando todas as provas coletadas. Um nome que ainda desperta grande interesse é Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, previsto para depor como testemunha. A expectativa é que seus depoimentos tragam luz sobre como o dinheiro lavado pelas associações entrava no sistema financeiro formal.
Os números são alarmantes. Se confirmados os R$ 800 milhões movimentados apenas por três entidades, o prejuízo aos cofres públicos e, principalmente, à segurança financeira dos idosos brasileiros, será considerado um dos maiores escândalos previdenciários da história recente do país. A justiça agora terá o desafio de rastrear esses bilhões e devolver o que foi roubado.
Perguntas Frequentes
Quem é o "Careca do INSS" e qual seu papel?
Antônio Carlos Camilo Antunes, apelidado de "Careca do INSS", era considerado até recentemente o maior operador financeiro do esquema de descontos ilegais. No entanto, a CPMI revelou que a família Camisotti movimentou valores cinco vezes maiores que os dele, sugerindo que ele atuava em uma escala menor dentro da mesma rede criminosa.
Por que Paulo Camisotti não respondeu às perguntas?
Paulo Camisotti permaneceu em silêncio durante seu depoimento porque estava amparado por um habeas corpus concedido pelo ministro Flávio Dino do STF. Esse mandado judicial garante o direito constitucional de não autoincriminação, permitindo que ele se recuse a responder perguntas que possam gerar provas contra si mesmo.
Qual o valor total envolvido no esquema dos Camisotti?
Segundo o relator Alfredo Gaspar, três entidades investigadas repassaram mais de R$ 800 milhões no total. Desses recursos, aproximadamente R$ 350 milhões teriam chegado diretamente a empresas ligadas à família Camisotti. Apenas a Ambec, associação vinculada a parentes da família, retirou R$ 500 milhões de beneficiários do INSS.
O que é a Ambec e qual sua relação com os Camisotti?
A Ambec (Associação de Aposentados Mutualistas para Benefícios Coletivos) é uma das entidades centrais no esquema de desconto irregular de benefícios. Sua conexão com a família investigada é direta: seu primeiro presidente foi Ademir Fratic Bacic, primo de Paulo Camisotti e sobrinho de Maurício Camisotti, indicando uma gestão familiar sobre os desvios.
Quando sairá o relatório final da CPMI do INSS?
A comissão já realizou 32 reuniões e está na reta final de suas atividades. O relatório final, que consolidará todas as investigações e indiciamentos, deve ser apresentado nas próximas semanas. Até lá, ainda estão previstos depoimentos importantes, como o de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
